
Várias vezes me lamento por não ter a chance de poder chegar a ser uma avó como foi a minha, mais do que isso me lamento pelo fato de que avós iguais à minha estão em processo de extinção, e em algum momento vão sumir por completo. Então meninas como eu fui um dia, não poderão tirar o soluço prendendo a respiração e falando “Jesus-Maria-e-José” antes de beber um copo d’agua de guti-guti, ou de ajudar a bater as vinte e quatro claras de ovo para fazer o bolo trinitário de natal, sem poder olhar diretamente para elas, com o sério risco de murcharem definitivamente sob o meu mau-olhado. Os meus futuros netos jamais passarão pela estranha experiência de ficar anos olhando para o alto do armário de roupas, vendo com temor os enormes frascos de vidro com tampas de metal, cheios de substâncias não muito desejáveis, como gordura de galinha caipira em conserva de álcool, pedaços de animais misturados com ervas e outras coisinhas que não posso descrever com palavras porque sempre foram um mistério para mim. A única informação que recebi sobre esses vidros foi que o conteúdo deles era um poderoso remédio contra crises de asma e outras doenças. Por sorte, nunca tive uma crise de asma na minha infância.
A vida urbana, a TV, a ciência, esse mundo de hoje me privaram da fé, mais do que isso, me privaram da crença. Por isso sou incapaz medir a temperatura da minha filha com o meu dedo polegar entre os seus lábios, e falar “trinta e nove e dois”, como falava a minha avó, e pode crer que era trinta e nove e dois. Jamais vou conseguir curar todas as doenças desta casa apenas com álcool, hirudoid e anis estrelado. Acho que se um dia fosse recriar o perfume da minha avó, misturaria esses ingredientes, mais um pouco de Jean Naté, talco e doce de mamão.
Tomara que a minha filha Laura possa ver o seu irmão ou irmã nascendo em casa, comigo de cócoras, e finalmente possa ter uma experiência roots em sua vida de paulistaninha digitalizada. Fico pensando, se esta prática se disseminasse, como seriam estas novas gerações? Té parece, obviamente isso não vai rolar. Aliás, cada vez vai ter menos vovós gordinhas de cabelo branco. Credo, que solidão.

3 comentários:
Valee
é JuLopes...
eu sonho com minha avó todas as semanas. queria tirar uma fotografia dela, mesmo morta e já cremada. será que vc me ajudaria?
Feliz em duplo com seu texto, Vale:
Primeiro, saber que alguem pensa nessas coisas estranhas e se lembra do cheiro super misturado com infancia que tem a avó. Mesmo sendo (diferente de ti) um paulistaninho (agora) ultra-digitalizadinho.
Dois, por hoje saber que essas coisas não estão tão em extinção assim. Saber que tem gente, nada paulistana, nada digitalizada, pra quem o misterio das coisas nao está naqueles potes cheios de coisas estranhas, mas sim numa tela e uma maquina que dizem ter o mundo. Juro. Te mostro um dia, depois do seu parto de cocoras.
Na casa da minha vó (que nós, do nordeste, ainda mantemos o hábito de chamar de vovó), era comum aparecerem aranhas, daquelas gordas e peludas. Não sei pq, elas gostavam de dar as caras bem na hora da novela. Vovó, que não desgrudava o olho da TV, não se fazia de rogada: sentadinha, em sua cadeira de balanço, tacava álcool Zulu na bicha e ateava fogo nela. A morte da aranha causava uma chama imensa no meio da sala e, nós, os netos, quase explodíamos de excitação. E vovó, pense, nem se mexia. Para ela, atração mesmo era a Viúva Porcina. Até hoje, guardo o cheiro da aranha queimada e o nhec nhec da cadeira de vovó.
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